“Vocês comeram hoje? Sabem quantos moradores de rua não comeram?” — a pergunta feita pelo artista Cid Branco, logo no início de sua apresentação em teatro imersivo, ecoou forte no auditório da Escola do Legislativo, na tarde desta terça-feira (19). Não era apenas uma provocação: era um convite a sentir a dor do outro.
Cid sabe bem do que fala. Viveu 15 anos nas ruas, enfrentando fome, violência e indiferença. Hoje, aos 56 anos, é estudante do sétimo semestre de Teatro na UFPel e encontrou na arte o caminho para reconstruir sua história. “Na rua, eu apanhava e era chamado de nada. No palco, me diziam que eu era bom. Então eu fiquei. A arte me resgatou”, contou, emocionado.
Ele participou da programação do Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, que reuniu profissionais de saúde, gestores públicos e sociedade civil em Rio Grande. Mais do que um evento, foi um chamado à consciência coletiva: são cerca de 300 pessoas vivendo hoje nas ruas da cidade, cada uma com nome, rosto, história e sonhos.
Uma realidade que não pode ser ignorada
O coordenador do Consultório na Rua, José Fernando Motta Teixeira, destacou que a equipe multiprofissional da Secretaria de Saúde acompanha diariamente essa população. “É um número possível de ser enfrentado, mas precisamos de continuidade e trabalho conjunto”, disse.
Dados do serviço revelam que 70% dos moradores de rua são brancos e 30% negros, expondo desigualdades que se somam à exclusão social. Para os profissionais, a saúde é só uma das portas de entrada para garantir dignidade, sendo fundamental integrar políticas de assistência, educação e habitação.
Compromisso público e chamado à sociedade
A secretária de Saúde, Juliana Acosta, lembrou que “o SUS é universal, mas para enfrentar desigualdades precisamos de equidade. Levar saúde a quem vive nas ruas é levar cidadania”. Ela anunciou o fortalecimento da equipe do Consultório na Rua e a chegada de uma unidade móvel.
Já a prefeita Darlene Pereira foi direta: “Não falamos apenas de números. São 300 seres humanos que precisam ser olhados e respeitados. Nosso compromisso é garantir dignidade, mas também precisamos da sociedade ao nosso lado. É ouvindo essas pessoas e construindo com elas que encontraremos soluções reais.”
O que fica depois do teatro
A fala final de Cid Branco foi um apelo à esperança, mas também à ação: “A pessoa tem que ter iniciativa. Eu quero ser um exemplo de que é possível sair da rua e buscar outras oportunidades.”
O auditório silenciou. O teatro havia terminado, mas a mensagem seguiu viva: não basta reconhecer o problema, é preciso agir. Cada gesto de humanidade pode ser a diferença entre a exclusão e um novo começo.
