
Por Ariane Morales
Bastou Roberto de Carvalho voltar a namorar uma antiga paixão, três anos após a partida de sua amada Rita Lee, para que inúmeras críticas inundassem a rede. Frases como “nem era tanto amor assim” e “falso” começaram a brotar nas telas. As pessoas se perguntavam: como pode ser feliz sem sua mulher? Acabou de ficar viúvo… A tal régua moral, afff.
Quando jogadores de futebol traem suas parceiras, tá tudo certo, é mais do mesmo. Mas um viúvo que cuidou, abdicou e se dedicou à esposa, e agora é um homem livre, não pode namorar de novo. Ele é obrigado a carregar a dor, viver um eterno luto e andar se debulhando em lágrimas e saudades. Se não for assim, dizem que os 40 anos de casamento não eram amor.
Já nas novelas, daí tá liberado. A mocinha da atual novela das 21h ficou viúva no primeiro capítulo e ninguém nem lembra do dito cujo que morreu numa enchente. Ela se apaixonou logo em seguida, casou com Fagundes na sequência e todo mundo ‘shipa’ ela com o mocinho. E sabem por quê? Porque na novela a gente acompanha o contexto (ahhh bendito contexto que nos faz baixar a régua).A gente acompanha os capítulos, vê o amor nascendo, é telespectador das renúncias, dos choros no quarto, o primeiro olhar, a primeira troca… E isso é o incrível, a gente testemunha o novo amor nascendo e assim acaba que tudo faz sentido.
Na vida real não. A gente não vê através das paredes da casa da viúva, a gente não escuta o choro, a gente não vê quando ela perde o sono agarrada a uma foto, não vê cada suspiro ao acordar de um sonho com ele, não escutamos suas orações. Deixem os viúvos viverem o que têm para viverem pois a gente não sabe o contexto.
No fundo, a própria Rita, com sua sabedoria transgressora e desapegada, já havia deixado a bênção escrita em “Amor e Sexo”, ela cantava que o amor é o “misterioso feitiço” que nos mantém vivos. O amor não morre com quem parte; ele se transforma. Rita sabia que prender quem ficou na tristeza não apaga a dor, apaga a vida.
Pois, diferente das novelas, tu não sabe que essa nova chance para o amor era o bálsamo que Roberto precisava para viver a vida sem sua rockeira. Esse novo afeto não diminui a história que eles construíram no altar do rock nacional. É, na verdade, a maior homenagem que se pode fazer a quem nos amou tanto: ter a coragem de continuar vivo, honrando o misterioso feitiço da existência até o nosso último capítulo.
