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SEM FREIO: A desilusão do quase

Por Ariane Morales

Uma vez eu ouvi que devemos, numa relação, deixar o amor morrer de causas naturais… Tipo “de morte morrida e não de morte matada”. Até porque, por mais especiais que sejamos, nos falta esse poder. Não temos o poder de matar o amor em nós, como se existisse um botão de liga e desliga.

O amor “morrido” é aquele que, aos poucos, vai desaparecendo…

Ele se perdeu na frouxidão dos abraços, na falta de beijos, no bom-dia murmurado. Perdeu-se na frieza dos sorrisos, na falta de diálogos, nas brigas constantes ou na indiferença latente. Perdeu-se naquela vez em que tu dormiu durante o filme escolhido, quando tu reclamou da toalha molhada, quando tu não apreciou a comida, quando tu não achou necessário um elogio. Morreu na acidez das palavras, na maldade gratuita de uma ofensa, na periculosidade das consequências geradas pelas atitudes de cada um.

Tu aprende, da pior maneira, que talvez nada seja melhor do que pouco…

E um dia tu olha e o amor não está mais lá. A relação continua, mas estamos apenas a velar esse amor. Infelizmente, ele morreu.

Causa da morte: natural.

Mas e o amor “matado”????

Esse tem charme. Possui um ar de mistério. Esse é daqueles de que tu lembra depois de 30 anos, numa terça-feira de sol, olhando pelo vidro do carro. Esse, a tua memória olfativa te esbofeteia quando cruza com alguém usando o mesmo perfume. Esse faz falta. Esse incomoda. Esse lateja.

É aquele amor que tu foi obrigada a matar. Aquele que a distância em quilômetros enfraqueceu. Aquele que não suportou a distância social. Aquele que, naquele momento, não te bastou. Aquele que não saiu ileso da prova da convivência.

Mas o cheiro do cabelo dela tu nunca vai esquecer. O jeito como gesticulava. As mexidas no cabelo quando estava nervosa. O sabor do seu beijo…

Aquele amor do qual, passados 20 anos, tu ainda recorda o diálogo que levou ao fim. Tu pensa no que poderia ter sido e não foi. Esse amor ficou no quase.

Te faltou coragem (ou insanidade) de jogar tudo para o alto por ela. Te faltou maturidade para encurtar essa distância entre cidades.

E se tu tivesse gritado ao mundo que perdoaria aquela traição? E se tu tivesse ficado com aquele maluco sonhador, mesmo tendo sonhado a vida inteira com estabilidade? E se tu tivesse o poder de voltar atrás?

Tu colocaria as malas naquele táxi? Tu optaria por esse emprego? Quando ela disse: “Ou ela ou eu”… tu diria “Ela” de novo?

Quem quase morreu… está vivo.

E a desilusão do “quase” atormentará tua existência.

Causa da morte:

Esperem!!!!

Desfibrilador aqui…

Ele está VIVO!!!

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