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ESPECIAL GERAL MANCHETE

QUANDO SOBREVIVER VIRA NEGÓCIO

Mulheres negras transformam saberes, afeto e resistência em renda nas periferias de Rio Grande

Patrícia Motta Marques acompanhada da filha Pietra, realiza entregas do Brechó da Paty. Entre vendas, maternidade e deslocamentos pela periferia de Rio Grande, ela transformou o pequeno negócio da principal fonte de renda da família. Crédito: Foto: Arquivo pessoal.

São oito horas da manhã quando Patrícia Motta Marques prende as últimas sacolas no bagageiro da bicicleta. Enquanto a cidade desperta para mais um dia de trabalho, ela já está pronta para sair pelas ruas da periferia de Rio Grande. Dentro das bolsas seguem vestidos, calças infantis e blusas cuidadosamente organizadas. Do lado de fora, segue algo que não cabe em nenhuma embalagem: a responsabilidade de garantir o sustento dos três filhos.


Mãe de Davi, de 12 anos, Maria Sophia, de 9, e Pietra, de apenas 1 ano e 7 meses, Patrícia percorre ruas da cidade levando mercadorias e construindo, a cada entrega, uma oportunidade de futuro.
Há cinco anos, em meio às dificuldades financeiras, nasceu o Brechó da Paty.
O que começou como uma alternativa para complementar a renda tornou-se a principal fonte de sustento da família.
Três vezes por semana, ela realiza transmissões ao vivo pelas redes sociais. Nos demais dias, fotografa peças, grava vídeos, organiza pedidos, atende clientes e administra um grupo de WhatsApp com mais de 200 participantes.
A renda varia conforme as vendas.
— Tem dias melhores e dias mais difíceis. Mas eu continuo. Melhor ter três ou cinco reais no bolso do que não ter nada para comprar algo para os meus filhos — afirma.
Sem CNPJ, sem acesso facilitado a crédito e sem capital de giro, Patrícia administra sozinha todas as etapas do negócio.
— O maior desafio é a crise financeira. Meu sonho é ter uma lojinha infantil e continuar com o brechó.
A história dela não é exceção.
Ela representa uma realidade compartilhada por milhares de mulheres brasileiras que transformaram a própria casa em espaço de trabalho, renda e sobrevivência.
Nas periferias, onde as oportunidades formais de emprego nem sempre chegam com a mesma intensidade observada em outras regiões da cidade, empreender muitas vezes deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

Quando empreender é resistir

Tecnóloga em Alimentos e cozinheira, Claudia Ortiz aposta na gastronomia como caminho para conquistar autonomia financeira e consolidar o sonho do próprio negócio. Foto: Arquivo pessoal

Do outro lado da cidade, na Vila Maria, outra mulher constrói diariamente um caminho semelhante.
Aos 53 anos, Claudinéa Machado Ortiz, conhecida como Claudia Ortiz, divide a rotina entre o trabalho como cozinheira em uma escola e a construção de um sonho: abrir o próprio gastrobar.
Administradora e tecnóloga em Alimentos, ela acumula uma trajetória marcada pela reinvenção profissional.
Mãe de três filhos, Claudia vê no empreendedorismo uma história construída em família. O filho mais velho, Thaynã, de 32 anos, vive em Portugal há quase quatro anos. Luan, de 31, também é empreendedor e tornou-se sócio da mãe no futuro negócio. Já Rafael, de 11 anos, integra a categoria de base Sub-12 do Juventude.
— Meu desejo é viver integralmente do nosso empreendimento e transformá-lo na principal fonte de renda da família.
A relação com os negócios começou há mais de uma década.
Entre 2012 e 2016, produziu salgados para festas, formaturas e eventos. Em períodos como Natal e Ano-Novo, chegava a atender cerca de cem encomendas, produzindo milhares de unidades.
— Eu fazia o que amava, mas não conseguia me manter financeiramente.
Em 2017, após concluir a graduação em Tecnologia em Alimentos, criou a Fit Gourmet, uma marmitaria voltada à alimentação saudável.
Mais tarde, passou seis meses em Portugal, onde teve sua primeira experiência profissional em uma cozinha. Ao retornar ao Brasil, ingressou no setor de alimentação escolar, atividade que exerce até hoje.
Mas o sonho do gastrobar ainda enfrenta um obstáculo comum a milhares de pequenos empreendedores brasileiros: a falta de capital para investir.
— O desafio financeiro é o que mais nos trava. Estamos pagando a quarta parcela do terreno e ainda não conseguimos inaugurar. Precisamos tirar recursos da nossa própria renda para investir no negócio, e isso faz com que tudo aconteça mais lentamente do que gostaríamos.
Mesmo diante das dificuldades, Claudia continua apostando na inovação. Atualmente, iniciou a produção de petiscos à base de tainha, proposta desenvolvida a partir de desafios apresentados durante sua participação no Projeto Pluralidades.

Empreendedoras(es) participantes do Projeto Pluralidades durante na Expo Favela Innovation RS 2025. Além da capacitação, a iniciativa promove conexões, visibilidade e oportunidades para negócios que surgem em territórios historicamente marcados por desafios sociais e econômicos. Foto: Divulgação/Sebrae RS

EMPREENDEDORISMO FEMININO EM NÚMEROS
583 mil mulheres estão à frente de pequenos negócios no Rio Grande do Sul.
Elas representam aproximadamente 34% do empreendedorismo gaúcho e atuam principalmente nos setores de comércio, alimentação, beleza, serviços e economia criativa.
Entre os principais desafios enfrentados estão:
• acesso ao crédito;
• formalização;
• gestão financeira;
• ampliação de mercado;
• conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares.

O EMPREENDEDORISMO QUE TRANSFORMA TERRITÓRIOS
As histórias de Patrícia e Claudia ajudam a compreender um fenômeno cada vez mais presente nas periferias brasileiras: o empreendedorismo de necessidade.
Em muitos casos, o negócio próprio surge como resposta à escassez de oportunidades formais de trabalho.
Salas transformam-se em salões de beleza.
Garagens tornam-se oficinas.
Cozinhas convertem-se em espaços de produção.
Quintais viram pequenas fábricas.
A casa deixa de ser apenas moradia para tornar-se instrumento de geração de renda.
Álvaro Fossati, gestor de Projetos Regional Sul do Sebrae RS, os impactos ultrapassam os limites dos negócios individuais.
— Quando uma empreendedora vende um produto ou presta um serviço, a renda gerada permanece naquele território. Esse recurso circula na padaria do bairro, no mercado do bairro, no salão de beleza do bairro. O desenvolvimento socioeconômico acontece de forma muito mais orgânica quando a atividade econômica nasce dentro da própria comunidade.
Atualmente, o Projeto Pluralidades desenvolve ações em Rio Grande voltadas ao fortalecimento de empreendedores pertencentes a grupos historicamente minorizados.
Segundo Fossati, experiências com objetivos semelhantes também são desenvolvidas pelo Sebrae em comunidades como Morro da Cruz, Bairro Cruzeiro e Bom Jesus, em Porto Alegre.
— Apesar das particularidades de cada território, existe algo em comum: pessoas que encontraram no empreendedorismo uma alternativa para gerar renda, autonomia financeira e novas oportunidades para suas famílias.

MULHERES NEGRAS E OS DESAFIOS INVISÍVEIS
Se empreender já é desafiador, ser mulher negra amplia as barreiras.
A dificuldade de acesso ao crédito, a informalidade, a sobrecarga dos cuidados familiares e as desigualdades históricas ainda influenciam diretamente a trajetória de milhares de empreendedoras brasileiras.
Patrícia conhece essa realidade.
Muitas das transmissões ao vivo acontecem com a filha pequena no colo.
As entregas são realizadas entre os compromissos domésticos e a maternidade.
— A gente encontra muitas dificuldades. Mas nada de desistir. Somos mulheres guerreiras.
Para Kelly Valadares, coordenadora estadual do Programa Plural no Sebrae RS, as transformações observadas entre as participantes vão muito além da gestão dos negócios.
— Temos observado um movimento de fortalecimento da autoestima, da autonomia econômica, da identidade empreendedora e da capacidade dessas mulheres se reconhecerem como protagonistas do desenvolvimento nos seus territórios.
Segundo ela, muitas mulheres já empreendiam antes mesmo de se reconhecerem como empreendedoras.
— Produziam, vendiam, prestavam serviços e sustentavam suas famílias, muitas vezes em condições de informalidade, com baixa margem financeira e pouco acesso a crédito, capacitação e mercado.
O acompanhamento técnico ajuda a transformar experiência em estratégia.
— Quando passam a ser acompanhadas, essas mulheres começam a olhar para seus negócios com mais organização, melhor precificação, posicionamento, comunicação, planejamento e visão de futuro.
Kelly destaca que fortalecer negócios liderados por mulheres negras significa enfrentar desigualdades históricas.
— Quando o Sebrae atua junto a esse público, não está oferecendo apenas capacitação empresarial. Está ajudando a reduzir desigualdades, ampliar a autonomia financeira, qualificar pequenos negócios e construir um desenvolvimento mais justo, plural e sustentável.
No caso de Rio Grande, ela avalia que esse trabalho ganha relevância especial por dialogar diretamente com a realidade dos territórios periféricos.
— Muitas vezes, o empreendedorismo nasce da necessidade. Mas, quando essas mulheres acessam conhecimento, rede, acolhimento e ferramentas de gestão, ele pode se transformar em oportunidade, pertencimento e geração de valor.

O QUE É O PROJETO PLURALIDADES
O Projeto Pluralidades, subsidiado pelo Sebrae RS em Rio Grande, tem como objetivo fortalecer empreendedores pertencentes a grupos historicamente sub-representados.
A iniciativa oferece capacitações, orientação para gestão, auto-desenvolvimento e pertencimento, contribuindo para o fortalecimento de redes de relacionamento e apoio ao acesso a mercados.
A proposta busca ampliar oportunidades econômicas, estimular a autonomia financeira e fortalecer o desenvolvimento dos territórios onde os empreendedores estão inseridos.
Muito além da geração de renda
Os números ajudam a dimensionar uma força econômica que muitas vezes permanece invisível.
Dados da Rede de Mulheres Empreendedoras de Rio Grande apontam mais de 1.450 mulheres cadastradas em iniciativas voltadas ao fortalecimento da autonomia econômica feminina.
São negócios pequenos.
Mas com impactos gigantes.
Quando a noite cai sobre os bairros periféricos de Rio Grande, as luzes das casas começam a se acender.
Em uma delas, Patrícia prepara a próxima live de vendas.
Em outra, Claudia revisa anotações do gastrobar que ainda não abriu as portas.
Separadas por bairros diferentes, elas compartilham a mesma certeza: desistir nunca foi uma opção.
Para Kelly Valadares, apoiar mulheres empreendedoras é também uma estratégia de desenvolvimento econômico e social.
— É reconhecer que existe potência onde historicamente houve invisibilidade. É transformar talento em renda, identidade em diferencial competitivo e comunidade em um lugar de oportunidade.
Nas periferias de Rio Grande, essa transformação acontece todos os dias.
Entre bicicletas carregadas de roupas, receitas que atravessam gerações, sonhos adiados pela falta de recursos e negócios construídos dentro de casa, mulheres negras vêm redesenhando a economia local, fortalecendo comunidades e criando novas possibilidades para o futuro.
Porque, para elas, empreender não significa apenas abrir um negócio.
Significa resistir.
Significa permanecer.
Significa transformar o próprio território.
E acreditar que o futuro pode começar exatamente onde antes só existiam dificuldades.
Por Débora Nilce Alencastro – Jornalista MTB/RS 20.250

5 Comentários

  • Glauci Cruz 09/06/2026

    Uma verdadeira iguaria das águas rio-grandinas, este petisco representa a identidade e a riqueza do território, reunindo tradição, sabor e memória em uma experiência gastronômica singular.

  • Eneida Guterres 09/06/2026

    É ótimo ter um novo sabor para degustar com o geito ,cor e sabor da nossa terra, parabéns pelo emprendimento delicioso, sucesso, recomendo.

  • Eneida Guterres 09/06/2026

    É ótimo ter um novo sabor para degustar com o geito ,cor e sabor da nossa terra, parabéns pelo emprendimento delicioso, sucesso, recomendo.

  • Claudia Ortiz 09/06/2026

    Débora, meu sincero agradecimento por retratar minha trajetória empreendedora com tanta sensibilidade e autenticidade. Cada palavra traduz não apenas minha história, mas os sonhos, desafios e conquistas que fizeram parte dessa caminhada. Sou muito grata por esse reconhecimento e por compartilhar minha jornada de uma forma tão especial. Conheçam o Na Rua Gastrobar onde será comercializado nosso Bah Fish

  • Eneida Guterres 09/06/2026

    gratificante ver surgir um novo sabor que traduz a identidade, as cores e os saberes da nossa terra. Um empreendimento delicioso, que valoriza a cultura local e proporciona uma experiência gastronômica única. Parabéns pela iniciativa e muito sucesso. Recomendo!

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