Há uma verdade que todo pescador conhece: uma boa rede não serve apenas para pegar peixe. Ela protege, sustenta e garante o alimento da família. E quando essa rede é lançada sobre as pessoas, levando cuidado, saúde e respeito, seu valor é ainda maior.
Foi exatamente essa sensação que ficou após a visita de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fundação Oswaldo Cruz), da Universidade Federal do Rio Grande e representantes da Prefeitura às comunidades pesqueiras de Rio Grande. Pela primeira vez, muitas mulheres que dedicam a vida à pesca artesanal sentiram que alguém atravessou o canal não apenas para observar seu trabalho, mas para ouvi-las.
Quem vive da pesca sabe que o esforço começa antes do amanhecer. São mãos marcadas pelo sal, pelo frio e pelo peso das redes. São mulheres que limpam pescado, remendam malhas, enfrentam o vento e ainda carregam sobre os ombros a responsabilidade pela casa e pela família. Apesar disso, durante décadas permaneceram quase invisíveis para boa parte da sociedade.
Na visão do pescador, esse encontro representa algo maior do que um projeto acadêmico ou um convênio entre instituições. Significa reconhecer que quem produz alimento para milhares de pessoas também precisa ser cuidado.
A visita à Ilha dos Marinheiros mostrou que a ciência pode navegar junto com a experiência de quem conhece cada corrente, cada maré e cada mudança do tempo. Não existe pesquisa capaz de substituir a sabedoria construída por gerações vivendo das águas, mas existe espaço para que esse conhecimento popular caminhe lado a lado com a medicina, a universidade e o poder público.
Outro aspecto importante é que o projeto não pretende apenas tratar doenças. Busca compreender como o trabalho da pesca afeta a saúde física e mental dessas mulheres, levando ações preventivas, educação em saúde e fortalecendo sua autonomia.
Para quem observa o cotidiano das comunidades pesqueiras, essa iniciativa chega em boa hora. As mudanças climáticas, a redução dos estoques pesqueiros, a poluição e as dificuldades econômicas aumentaram a vulnerabilidade de muitas famílias que dependem exclusivamente da pesca artesanal.
Mais do que investimentos em infraestrutura, essas comunidades precisam de políticas públicas permanentes que considerem sua realidade. Afinal, quem trabalha sobre as águas enfrenta desafios muito diferentes daqueles vividos nos centros urbanos.
Se Rio Grande passar a integrar oficialmente a rede nacional do projeto Mulheres Pescadoras: Autonomia, Igualdade e Sustentabilidade Ambiental, será um passo importante para transformar conhecimento em ações concretas, fortalecendo a atenção básica de saúde, ampliando pesquisas e valorizando o protagonismo feminino nas comunidades tradicionais.
Na ótica do pescador, há um simbolismo bonito nesse movimento. Assim como uma rede bem lançada alcança todos os peixes do cardume, uma política pública bem construída precisa alcançar todas as pessoas, principalmente aquelas que por muito tempo ficaram à margem.
Porque quem vive das águas também merece navegar com dignidade, saúde e reconhecimento. E talvez esta seja a melhor pesca que Rio Grande pode fazer: lançar redes de cuidado sobre quem, há gerações, alimenta a cidade e preserva uma das mais importantes tradições do nosso litoral.

