MONUMENTO AO GEN. BENTO GONÇALVES
O Monumento Túmulo do General Bento Gonçalves, na Praça Tamandaré, é repleto de história e ‘’charadas’’ escondidas nas entrelinhas de suas esculturas, mas vamos do princípio, passando pelos mistérios e terminando com os mitos.
Tudo começa com a carta de gratidão da família de Bento Gonçalves a Alfredo Rodrigues, idealizador do monumento, no dia 26 de setembro de 1900. A carta foi escrita por Joaquim Gonçalves, filho de Bento e único ainda vivo à época.
“Rendo graças a Providência Divina por haver permitido presenciar as magníficas homenagens prestadas pela muito culta população do Rio Grande à memória de meu respeitabilíssimo pai, General Bento Gonçalves da Silva, a 20 de setembro de 1900, 65º aniversário do Movimento Revolucionário por ele chefiado.
Na qualidade único filho sobrevivente do inesquecível varão, deixo nestas linhas, expressas a minha gratidão imorredoura a todos quantos concorreram para a deslumbrante apoteose de tão preclaros restos.
Em primeiro lugar está o inestimável cavalheiro Ilmo. Sr. Alfredo Ferreira Rodrigues, a quem a cidade do Rio Grande deve a preferência de possuir hoje a sagrada relíquia que eu conservava, por ela velando com a veneração que devo àquele que nunca deixou de povoar a minha alma com as mais doces recordações. Foi ele o escritor interessado em reviver os fatos do passado e desentranhar dos velhos arquivos a verdade sobre os homens de 35, e quem de mim conseguiu a entrega dos ossos de Bento Gonçalves a este município.
Cabe, depois, a vez dos Exmos. Srs. Dr. Conrado Miller de Campos, Ilustre Intendente Municipal e Dr. Arlindo Corrêa Leite, talentoso Promotor Público da Comarca, os quais, com aquele consciencioso historiador das glórias gaúchas, constituírem a Comissão Glorificadora, que, com todo critério, dirigiu as cerimônias de 20 do corrente, até as homenagens pessoais, que, generosamente, me foram tributadas.
Joaquim Gonçalves da Silva”
Dizem que era o único local de água potável da cidade, aqui foram cavados poços(cacimbas), onde havia constante agrupamento de negros escravos, que iam buscar água, para seus senhores, e faziam grande balburdia. Por isso, o local, passou a ser conhecido por Giribanda (grafado por todos os jornais do Rio Grande, com “G”), embora, não se encontre nos dicionários atuais. Jiribanda, s.f. Admoestração violenta; descompustura, arruaça, balburdia, etc… A Praça Tamandaré atual começou a ganhar forma no final do século XIX, vindo a ser inaugurada em 1900.

Neste mesmo ano de 1900, o filho do Gen. Bento Gonçalves resolve doar os restos mortais do seu pai ao Estado do Rio Grande do Sul, e aí temos a primeira lenda urbana sobre os restos mortais do general estarem no Rio Grande. Então, para acabar com a lenda de que Rio Grande ganhou um concurso de quem apresentaria o monumento mais bonito, segue abaixo o decreto do Estado que explica como o Gen. Bento Gonçalves veio a ser enterrado aqui, na Praça Tamandaré.
“Para resolver a questão de forma definitiva, imparcial e democrática, os deputados constituintes republicanos, inseriram no Ato das Disposições Transitórias, o artigo 8º da Constituição do Rio Grande do Sul, promulgada em 14 de julho de 1893, o seguinte texto: ‘Será elevado em uma das praças públicas do Estado, um monumento à memória de Bento Gonçalves da Silva e de seus gloriosos companheiros na cruzada de 1835, tão logo os cofres públicos o permitam, se antes a iniciativa particular não houver satisfeito tão patriótico tributo’.
Assim, o povo do Rio Grande, suas entidades mais representativas e a Intendência Municipal, anteciparam-se a todas as cidades ou vilas, recolheu os fundos necessários e apresentou o projeto de um monumento, que foi considerado uma obra prima pela família, amigos e o próprio Governo do Estado. Eis o porquê, a razão porque hoje o túmulo do insigne general Farroupilha está localizado bem no centro, no coração da praça Tamandaré.”
Após serem desembarcados no porto do Rio Grande, os despojos foram depositados em uma urna de mármore, doada pela Intendência Municipal, com a inscrição: Aos heróis de 1835 o Rio Grande agradecido. Dessa forma, o prédio público serviu como sede temporária, designando seu salão nobre para a visitação geral da população que, por sua vez, promoveu uma intensa visitação ao local e enfeitou suas residências com bandeiras nacionais e farroupilhas.
A construção de um Monumento Túmulo a Bento Gonçalves era compreendido como a instalação de um altar cívico para a população. Com a obra, erguer-se-ia um templo para a prática de uma espécie de civismo religioso, baseado na adoração de um personagem e seus seguidores, que teriam, segundo a imprensa, vivido e lutado pela liberdade de um povo.
Como vemos no livro escrito por Francisco das Neves Alves e Juarez Fuão: ‘’ No final do ano de 1903, quando as subscrições populares já haviam alcançado um montante considerado satisfatório para o andamento da obra, advinda de cofres públicos e privados, coube à Comissão Promotora do Monumento-túmulo a Bento Gonçalves determinar o escultor responsável pela obra. A escolha do artista se constituía em peça fundamental para o sucesso de recolhimento de donativos de verbas processado junto à comunidade sul-rio-grandense.
Ratificando essa importância, tão logo a decisão sobre o escultor, a Comissão Promotora tratou de enviar, a determinadas personalidades no Rio Grande do Sul, em sua maioria com significativo poder aquisitivo, um documento que comunicava tal resolução e solicitava donativos para a obra.
A seleção do escultor se deu por meio de um concurso(nota: talvez aí começou a confusão com um concurso em outro sentido, o financeiro!) ao qual concorreram artistas nacionais e estrangeiros de preferência da própria comissão organizadora da obra. Solicitou-se o envio dos respectivos projetos para que pudesse ser decidido, pelos patrocinadores, qual seria o mais adequado para abrigar os restos mortais de Bento Gonçalves.
Predominou na comissão a preferência por escultores estrangeiros sendo que, dentre os cinco artistas requisitados, apenas um, Rodolpho Bernadelli, autor das estátuas de José de Alencar, Caxias e Osório, entre outras, era brasileiro. Entre os demais, um era francês, Fernando Hamar, escultor da estátua de Rochambeau na cidade de Washington; outro, o italiano Eumene Tomagnini, que esculpiu em mármore a figura de Cristóvão Colombo exposto na Guatemala; e dois portugueses, Thomas Costa, autor da estátua de D. Henrique, localizada na cidade do Porto e António Teixeira Lopes, conhecido por ter esculpido importantes monumentos, entre eles o que homenageava Affonso de Albuquerque, em Lisboa, e as portas da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.
Entre os participantes, o escolhido foi o português Teixeira Lopes. Tal decisão, logo após o anúncio, encontrou grande respaldo na sociedade, com destaque para a imprensa.’’

Alguns detalhes chamam atenção no que diz respeito a certas provocações ao Brasil, a iniciar pelo 20 de setembro estar acima do 15 de novembro, os leões que não tem nada haver com o que é ensinado aos jovens hoje em dia, sobre isso, Juarez Fuão explana o seguinte:’’ No entanto, outro fator pode ter colaborado para a tentativa de exclusão dessa alegoria: o discurso contido nessa imagem. Com esse ornamento, o artista buscou transmitir ao público uma figurativa representação da Revolução Farroupilha na qual um dos leões em posição inferior, segundo Teixeira Lopes, inteiramente deitado ou derrubado pelo mais forte levanta-se, encarando o opositor em atitude serena, mas ameaçadora, estaria representando a República Rio-Grandense.’’ Ou seja, o Brasil teria uma vantagem, no entanto, o Rio Grande do Sul não estava totalmente derrotado, o espírito Farrapo ainda estava vivo!
O Prof. Miguel Ramos em seu livro, não disponível ao público em geral, apenas para os Maçons da Loja Maçônica Philantropia do Sul, História do Monumento-Túmulo de Bento Gonçalves: Sua origem e construção, que foi escrito quando do centenário do monumento, na página 50 nos dá uma grande ideia para uma complementação do monumento.
“Porque não sonhar um pouco mais adiante e construir um mausoléu ‘in memorian’ dos heróis de 35(1835), ao redor do túmulo do seu chefe supremo?
Seria a homenagem complementar que falta para Bento Gonçalves e traria para o Rio Grande mais uma atração histórica, turística. Ao redor do monumento seriam erguidas colunas e em cima delas colocados os bustos dos principais chefes Farroupilhas, a começar pelo vice-presidente Vasconcelos Jardim e seguindo todo o Ministério da República Rio-grandense e seus principais chefes militares. O local poderia, com o tempo, ser instituído como uma espécie de ponto de peregrinação do tradicionalismo gaúcho, montando um palco para apresentações nas datas festivas. É óbvio, que face ao espírito destruídos que graça nos tempos atuais, o lugar deveria ser cercado e cuidadosamente vigiado para que não houvesse perversas depredações.
Acreditamos que o Rio Grande mereça abrigar esse verdadeiro altar em memória dos Farroupilhas, mesmo tendo sido, por contingência e por descuido dos próprios líderes, uma cidade dita legalista. Trata-se de mais um sonho, mas, afinal, já sonhamos tanto: uma revolução redentora, democrática, cheia de tentativas de conciliação; uma república nos moldes das mais modernas do mundo; a imediata abolição da escravidão, e em 1900, o início da construção do monumento. Não custa nada consignar mais um sonho sobre a grandeza Farroupilha.”
Particularmente, já a muito tempo, desde a década de 1980, compartilho do mesmo pensamento do Prof. Miguel Ramos, onde sinto, quando olho para aquele monumento, principalmente a efígie do Gen. Netto, e sinto correr no meu corpo o sangue Farrapo, o pertencimento e orgulho de ser gaúcho, que sempre carreguei, principalmente quando morava fora do Rio Grande do Sul. Sei que será difícil esse sonho se realizar, que eu nem esteja vivo, caso esse sonho se realize, mas espero, pacientemente, que o grito de independência do Brasil que o Gen. Netto gritou nos campos de batalha do Seival, um dia se realize!







