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FATOS & COISAS Com Ronaldo Morgado Segundo

 

De espantalho a atração de beira de estrada: O relato artístico romanceado e o testemunho do “Napoleão Imperador do Senandes”

Marlon Borges Pestana*

Celso Pires Braga*

O Senandes sempre foi misterioso na minha infância, quase nenhuma casa, poucas pessoas e aquela estátua lá, quase a beira da estrada a observar o vai e vem das pessoas. Quando voltei para Rio Grande, inicio dos anos 1980, observei que tinham levado o Napoleão para a Praça Tamandaré. Fiquei muito triste com isso, pois o lugar do Napoleão, para quem viveu a infância naquela época, é na naquela curva da estrada do Cassino, lá no Senandes (BRAGA, 2014, p. 5).

De acordo com o relato da senhora Eni Duarte, autora da foto, o “espantalho”, comentou a Sra. Eni após a reportagem, foi adquirido pelo sogro que o comprou num leilão para usar na sua horta ao lado da antiga casa colonial.Como a escultura é da década de 1910, esse fato teria ocorrido entre 1935 e 1945. Nos anos 1950 o colocaram na beira da faixa ao lado do bar Bodega, e por lá ficou por cerca de vinte anos. Muitas pessoas que cruzavam o Senandes, em direção ao Balneário Cassino, avistavam ao passar a estátua imponente de Napoleão à beira da estrada.

Um dos fatores importantes da memória coletiva é que a seleção de relatos, mesmo sendo assistemática, reflete certa afeição daqueles que testemunharam a obra de arte em diferentes espaços. Trata-se dos processos perceptivos da exposição da arte tal como é independente do cenário em que está alocada. Essa disposição é política e social, selecionada culturalmente e disposta através da escolha da própria comunidade.

O sentido da exposição da estátua de Napoleão foi “tornado” importante pelo sujeito coletivo rio-grandino, com forte entonação comunitária. Para tanto, suas constantes realocações se devem a escolhas políticas dos cidadãos e cidadãs que atribuíam importância artística e de exposição à escultura.

Estátua de Napoleão na casa no Senandes, seu local de origem na segunda metade do Séc. XX.

Então comecei a pesquisar sobre a história da estátua, nessa procura,encontrei vários comentários em jornais, revistas e depoimentos pessoais, mas que nunca contavam a história completa. Em 2009, encontrei um texto que parece que foi escrito pra mim, intitulado: “Napoleão o Imperador do Senandes” de Luiz Carlos Rivera, que gostei muito, e que só fez aumentar a vontade de divulgar a história. Também fiz contato com moradores do Senandes, que me ajudaram com várias informações importantes.

Em 2011, o web site Papareia e também o Prof. Dr. Luiz Henrique Torres reproduziram uma reportagem da Revista “O Cruzeiro” de11 de Junho de 1960, intitulada “Napoleão cruza os braços” que conta com ricos detalhes a história: “Interessante, para Rio Grande, é possuir em espaço público uma estátua de 1,67m de altura dedicada a Napoleão. Desde a década de 1970, a imagem de Napoleão está exilada numa ilha da Praça Tamandaré, de onde observa os patos nadando no lago de aparência nada cristalina” (TORRES, 2011, p. 03; BRAGA, 2014, p. 05). Muitas lendas estão ligadas a esta obra de arte. Uma delas é que fora encontrada na beira da praia do Cassino, nas primeiras décadas do Séc. XX. “Outra, talvez verdadeira, é que seja uma das únicas estátuas de Napoleão em espaço público em todo o planeta.”(TORRES, 2011).

Estátua de Napoleão na residência do Senandes. Gilmar Gautério Abril de 1967. Jornal O Cruzeiro 11 de junho de 1960.

“Napoleão Bonaparte, o Corso, dificilmente poderá ser encontrado fora da clássica posição da mão direita sob a túnica. Mas, na Praia do Cassino, cidade do Rio Grande, ele está de pé, braços cruzados, à sombra fresca dos eucaliptos da chácara do Sr. Evaristo Duarte. A estátua tem uma história antiga, foi esculpida em tamanho natural há 45 anos, por Matteo Tonietti, para atender a uma encomenda do construtor lusitano Manoel José Funchal. Manuel J. Funchal gostava de guerreiros, por isso, Bonaparte, de braços cruzados foi encomendado a fim de “acompanheirar” os outros dois comandantes famosos: Bismark e Moltke. A onda contra os alemães, entretanto, levou, em 1914, a fazer com que esses dois últimos desaparecessem do jardim do lusitano.” (ALVEZ; FUÃO, 2005; BRAGA, 2014, p. 05).

A residência de Manoel José Funchal, onde a estátua de Napoleão esteve, é na rua Gal. Vitorino, quase esquina 24 de Maio (Figura 3). Essa informação e outras que a Revista “O Cruzeiro” publicou, foram confirmadas com uma visita que fiz no mês de Abril de 2014, ao neto e bisneta do Sr. Manoel José Funchal, respectivamente, Sr. Ivo Braga e Rosangela Braga Knak, que me receberam muito bem em sua residência. Napoleão foi dado a um amigo de quem o Sr. Evaristo Duarte o herdou. E o Corso(sem Waterloo) permaneceu de pé. Braços cruzados fluindo os ares dos mistérios do Senandes.

 Patrimônio edificado da família Funchal, primeira “morada” da estátua de Napoleão; Reportagem da Revista O Cruzeiro sobre a estátua.

A matéria confirma as informações de que a obra é do escultor Matteo Tonietti que deixou uma importante contribuição artística para Rio Grande desde a sua chegada a cidade no final do Séc. XIX. Considero que valorizar uma obra de Tonietti é essencial para preservar as raízes artísticas da produção local. A datação da obra recua a aproximadamente 1915, ou seja, uma peça centenária. Foi produzida para Manoel José Funchal, que apreciava obras de arte, pois esteve envolvido nas contribuições para construção do monumento-túmulo ao general farroupilha Bento Gonçalves da Silva  inaugurado em 1909. (ALVEZ;FUÃO, 2005).

O fato é que a estátua de Napoleão teve um primeiro exílio com sua colocação na localidade do Senandes (BRAGA, 2014), fazendo parte do imaginário e da oralidade das pessoas que ainda recordam das fotografias tiradas ao lado dele no caminho para a praia do Cassino. É uma das marcas do imaginário a figura do Napoleão “observando a passagem do trem ou dos carros rumo à primeira praia de banhos plana do Brasil”. Em Abril de 2013 a Sra. Irma Oliveira Caruso, questionou no Jornal Agora, a presença da estátua de Napoleão na Praça Tamandaré. Algumas pessoas opinaram, mas nenhuma soube dizer o que realmente aconteceu. Em Janeiro de 2014, foi entregue uma carta do Sr. Evaristo Duarte Neto, que esclarece toda a situação que envolve a ida e volta da estátua para o Senandes e a chegada da mesma na Praça Tamandaré.

Faço uso desse espaço livre aos leitores, com objetivo de informar o motivo pelo qual a estátua de Napoleão Bonaparte está na Praça Tamandaré.Meu avô paterno, Evaristo Pinheiro Duarte, um conhecido construtor desta cidade, atuante nas décadas de1910 e 1940 do século passado, arrematou em um leilão a estátua, obra do escultor Matteo Tonietti.

O relato do Sr. Evaristo segue com riqueza de detalhes:

meu avô colocou a estátua em um sítio, às margens da ERS-734. Após o falecimento de meu avô, meu pai, João Pinheiro Duarte, herdou o sítio com o monumento. Quando meu pai decidiu vender o sítio, o então vereador Josino Almir Dutra pediu que meu pai doasse o Napoleão para a Prefeitura Municipal como forma de ornamentar o lago da praça.

Os relatos destoando refletem na verdade, uma mesma situação, que está presente em ambas as narrativas, apenas com nuances individuais. Em resposta a esposa do Sr. Evaristo revela o seguinte:

Saiba madame Irma de Oliveira Caruso, da França, que tanta coisa nesta cidade não tem conotação, entretanto, de acordo com Evaristo Pinheiro Duarte Neto

Esta publicação póstuma é uma resposta a rio-grandina radicada, na França, Irma de Oliveira Caruso que questionou a origem da estátua em carta publicada em 24/04/2013. O autor da resposta faleceu em 18/10/2013 e sua carta foi entregue  em 29/01/2014 ao jornal Agora por sua esposa.Em resumo, o motivo da estátua de Napoleão Bonaparte está na Praça Tamandaré, é único e exclusivamente para homenagear o escultor da obra, Matteo Tonietti.

A história chega ao seu final, agradecendo aos moradores do Senandes que cooperaram com informações e fotos, agradeço também aos familiares de Manoel José Funchal que também com fotos e depoimentos, ajudaram para que essa pequena história fosse contada. Espero que as respostas que foram dadas sejam suficientes para informar aqueles que não viveram todos esses momentos e como diz o Sr. Rivera, também para todos que como eu,um dia foram crianças na antiga cidade do Rio Grande que possui considerável patrimônio monumental (ALVEZ; FUÃO, 2005).Tivemos que crescer, mas com alma de menino, ainda hoje procuro esperançosamente o Napoleão naquela curva da estrada.

 

2 Comentários

  • Regina Emilia Faustino Gonçalves 17/10/2025

    Adorei, como sempre, o teu relato.
    Muitas dúvidas foram esclarecidas.
    Valeu, Ronaldo!!!!!👏👏👏👏🤗

    • RONALDO FERREIRA MORGADO SEGUNDO 20/10/2025

      Muito obrigado Regina! Abraço!

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