Lideranças religiosas ligadas a terreiros de matriz africana de Rio Grande participaram, na sexta-feira (13) e no sábado (14), de dois encontros voltados à orientação sobre acesso a políticas públicas culturais, com destaque para a Política Nacional Cultura Viva, iniciativa do Ministério da Cultura que reconhece e apoia iniciativas culturais comunitárias em todo o país.
As atividades ocorreram no Salão Nobre Deputado Carlos Santos, na Prefeitura Municipal, e reuniram representantes de diversas casas religiosas do município. A convidada especial foi a líder religiosa Mãe Carmen de Oxalá, diretora espiritual da Associação Beneficente Cultural Africana Templo de Yemanjá (Assobecaty), de Guaíba, que compartilhou experiências e orientações sobre como comunidades tradicionais podem acessar programas culturais e editais públicos.
As rodas de conversa foram coordenadas por Chendler Siqueira, titular da Coordenadoria Municipal de Políticas de Inclusão Racial. Durante os encontros, foram esclarecidos critérios para que terreiros, coletivos e grupos culturais possam ser reconhecidos como pontos ou pontões de cultura, conforme as regras da política nacional.
Casas de tradição e memória cultural
O encontro de sexta-feira foi direcionado especialmente a religiosos de casas de matriz africana de linha contínua, aquelas que permanecem ativas por mais de uma geração, preservando saberes, rituais e tradições transmitidos entre familiares e membros da comunidade.
A atividade contou ainda com a participação da antropóloga Maria Helena Santana, representante do Museu Antropológico do Rio Grande do Sul, vinculado à Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.
Durante o encontro, Mãe Carmen apresentou a experiência da Assobecaty, reconhecida como o primeiro pontão de cultura do Estado. Dentro dessa estrutura, destaca-se o projeto Pontão Pequena África, voltado ao resgate, reconhecimento e valorização das casas de tradição contínua.
Segundo a religiosa, além da dimensão espiritual, os terreiros desempenham papel fundamental na preservação da cultura afro-brasileira, mantendo vivas práticas culturais, conhecimentos ancestrais e memórias coletivas.
Reconhecimento como ponto de cultura
Já no sábado, o encontro teve caráter formativo e foi aberto a todos os terreiros do município. A roda de conversa abordou detalhadamente os caminhos para que comunidades possam buscar reconhecimento oficial como ponto ou pontão de cultura junto ao Ministério da Cultura.
De acordo com Chendler Siqueira, os terreiros já exercem, na prática, uma função cultural importante ao preservar saberes ancestrais e promover atividades comunitárias. O reconhecimento formal pode ampliar o acesso a editais e programas de incentivo cultural nas esferas federal, estadual e municipal.
Mapeamento das comunidades tradicionais
As atividades também dialogam com um mapeamento realizado pela Coordenadoria Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial em Rio Grande. O levantamento busca identificar e registrar a presença de comunidades tradicionais de matriz africana nos bairros da cidade.
Até o momento, equipes já percorreram seis bairros e identificaram mais de 690 comunidades tradicionais de matriz africana no município. A expectativa é que o mapeamento seja concluído até novembro.
Paralelamente, o projeto Pontão Pequena África, conduzido pela Assobecaty, realiza uma busca ativa por casas de linha contínua, com o objetivo de registrar e valorizar espaços que preservam tradições transmitidas ao longo de gerações.
Instituto Filhos de Aruanda como referência cultural
Durante o encontro de sábado, também participou Cristiano Ávila Costa, fundador e presidente do Instituto Cultural Filhos de Aruanda, instituição localizada no Centro de Rio Grande e reconhecida como ponto de cultura nacional desde 2016.
O instituto é considerado referência na área de cultura comunitária e atende cerca de 200 alunos, oferecendo atividades gratuitas como capoeira, dança, teatro, jiu-jitsu, reforço escolar, clube de cinema e biblioteca comunitária, além de ações de convivência e apoio social para crianças e jovens.
Segundo Cristiano Costa, a experiência do instituto demonstra que organizações comunitárias e terreiros podem atuar como importantes centros de produção cultural e fortalecimento social, ampliando oportunidades para as comunidades.
Atualmente, Rio Grande conta com 12 iniciativas culturais reconhecidas ou em processo de reconhecimento dentro da política Cultura Viva.
A programação dos encontros foi organizada pela Coordenadoria Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com apoio da Secretaria de Município de Assistência Social e Direitos Humanos e parceria com a Secretaria Municipal da Cultura e Economia Criativa, o Museu Antropológico do Rio Grande do Sul e a Secretaria de Estado da Cultura.


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