Menos pórticos não significa menos peso no bolso. E é isso que precisa ser discutido.
Mais uma vez, o Rio Grande do Sul se prepara para assistir a um velho filme: anuncia-se uma grande concessão, fala-se em investimentos bilionários, duplicações, segurança, tecnologia e modernização. Tudo muito bonito no papel.
Mas existe uma palavra que aparece quase sempre em letras menores:
pedágio.
A nova concessão das BR-116 e BR-392 prevê 12 pórticos de cobrança pelo sistema free flow. Dois foram retirados da proposta original depois das reivindicações da sociedade. É uma vitória? Sim, em parte.
Mas não podemos confundir redução do número de pórticos com redução da conta.
O motorista continuará pagando para utilizar uma rodovia que já faz parte da infraestrutura essencial do Estado. E aqui está o ponto que precisa ser dito sem rodeios:
o cidadão já paga — e paga muito — para ter direito a circular.
Paga IPVA.
Paga licenciamento.
Paga combustível carregado de impostos.
Paga pneus, manutenção, seguro e uma infinidade de tributos embutidos em praticamente tudo que envolve um veículo.
E agora, quando precisar utilizar uma rodovia concedida, terá novamente de colocar a mão no bolso.
Mas afinal, quanto vale a passagem?
Essa é a pergunta que precisa estar no centro do debate.
Não basta anunciar R$ 1,18 bilhão em investimentos no terceiro ano da concessão. Não basta falar em câmeras, duplicação e melhorias.
Queremos saber:
Quanto o motorista vai pagar?
Quanto pagará um trabalhador que passa diariamente pela rodovia?
Quanto pagará um caminhoneiro que utiliza o corredor para transportar mercadorias?
Quanto isso representará no custo do frete e, consequentemente, no preço dos produtos que chegam à nossa mesa?
E, principalmente:
quais obras estarão efetivamente entregues antes de o cidadão começar a pagar?
Porque existe uma diferença enorme entre prometer investimento e entregar infraestrutura.
Rio Grande não pode ser lembrada somente quando precisam do nosso porto
A BR-392 é estratégica para Rio Grande.
Por ela passam cargas, trabalhadores, turistas, empresas e uma parcela significativa da economia que movimenta o município e o Estado.
A duplicação do acesso ao Porto de Rio Grande é necessária. Não é luxo. Não é favor.
É infraestrutura básica para uma região que movimenta bilhões e ajuda a sustentar a economia gaúcha.
Por isso mesmo, Rio Grande precisa participar desse debate com firmeza.
Não queremos apenas saber quantos pórticos serão instalados.
Queremos saber quanto vamos pagar e o que receberemos em troca.
Free flow não pode virar “free bolso”
O sistema eletrônico é moderno. Ninguém discute.
Passar sem parar, sem filas e com cobrança automática pode ser muito melhor do que as antigas praças.
Mas tecnologia não torna a cobrança mais justa automaticamente.
Free flow significa passagem livre. Não significa cobrança livre de questionamentos.
O motorista precisa ter transparência, facilidade para consultar débitos, contestar cobranças indevidas e saber exatamente quanto está pagando.
E mais: precisa existir fiscalização rigorosa sobre o cumprimento das obrigações da concessionária.
Porque se o cidadão é obrigado a pagar, a empresa também precisa ser obrigada a entregar.
Não somos contra o pedágio. Somos contra pagar sem saber pelo quê.
É importante deixar isso claro.
Uma rodovia bem cuidada, segura, duplicada e com atendimento eficiente tem valor. E uma concessão pode, sim, ser uma ferramenta para garantir investimentos que o poder público muitas vezes demora décadas para realizar.
O problema começa quando a sociedade é apresentada primeiro à conta e depois às explicações.
Pedágio não pode ser cheque em branco.
O contrato precisa estabelecer metas claras, prazos, fiscalização, indicadores de qualidade e mecanismos de punição quando as obrigações não forem cumpridas.
E o cidadão precisa ter acesso a essas informações.
Agora é a hora de cobrar
A nova concessão ainda está sendo estruturada.
Portanto, este é justamente o momento de a sociedade cobrar.
Depois que o contrato estiver assinado, o discurso muda. As regras estarão estabelecidas e qualquer alteração será muito mais difícil.
Por isso, o Agora News RG defende que Rio Grande, suas entidades empresariais, sindicatos, transportadores, trabalhadores, universidades, lideranças políticas e comunidade acompanhem de perto cada etapa dessa concessão.
Porque a pergunta não pode ser apenas:
“Quantos pórticos teremos?”
A pergunta correta é:
“Quanto vamos pagar e o que vamos receber em troca?”
E fica aqui o nosso compromisso editorial:
o Agora News RG vai acompanhar essa concessão.
Vamos cobrar valores, prazos, obras, investimentos e resultados.
Porque menos pórticos é bom. Rodovia melhor também.
Mas, se a conta vier para o bolso do cidadão, a cobrança por resultados também terá que vir.
