Audiência na Câmara reúne autoridades e representantes da rede de proteção e expõe um alerta: sem mais estrutura, prevenção e atendimento, a violência continua avançando
Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, Rio Grande ainda enfrenta um desafio que exige muito mais do que discursos: ampliar a estrutura de proteção e garantir atendimento qualificado às mulheres vítimas de violência. Essa foi a principal conclusão da audiência pública realizada na noite de sexta-feira (21), na Câmara de Vereadores.
Proposto pela vereadora Denise Marques e presidido pelo vereador Glauber Nunes, o encontro reuniu autoridades, lideranças femininas e profissionais que atuam diretamente na rede de proteção. Durante cerca de três horas, foram discutidos avanços, dificuldades e, principalmente, a necessidade de investimentos permanentes para que a legislação saia do papel e alcance efetivamente quem precisa de ajuda.
Rio Grande construiu, ao longo dos anos, uma rede integrada de atendimento e é considerado referência no Estado em algumas iniciativas. Mesmo assim, a realidade da violência demonstra que ainda há muito a avançar. Em 2026, o Rio Grande do Sul já contabiliza 52 feminicídios consumados e 142 tentativas, números que reforçam a urgência de fortalecer prevenção, acolhimento e proteção.
A coordenadora municipal de Políticas Públicas para as Mulheres, Maria de Lurdes Lose, destacou que os avanços conquistados pela Lei Maria da Penha precisam ser acompanhados por uma rede cada vez mais preparada. Ela defendeu formação permanente dos profissionais, atendimento sem julgamentos e maior capacidade para identificar formas de violência que muitas vezes permanecem invisíveis.
Maria Lose também ressaltou que o enfrentamento não pode ficar restrito aos serviços especializados. Para ela, homens, escolas e universidades precisam participar da construção de uma cultura de prevenção e combate à violência contra as mulheres.
Prevenção precisa começar antes da violência
A prefeita Darlene Pereira reforçou a importância da atuação conjunta entre os órgãos públicos e defendeu que a rede avance também na prevenção. Segundo ela, a integração das instituições permite ampliar as ações e enfrentar o problema antes que a violência chegue às situações mais graves.
A promotora de Justiça Valdirene Jacobs também chamou atenção para a necessidade de uma estrutura compatível com a demanda. Embora reconheça que Rio Grande possui uma rede melhor estruturada em comparação com outros municípios, afirmou que ainda há limitações, especialmente diante do volume de medidas protetivas.
DEAM pede mais estrutura
A delegada Alexandra Sosa, titular da 24ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), apresentou dados atualizados sobre os feminicídios no Estado e destacou o papel da Polícia Civil no atendimento às vítimas.
Entre as estratégias adotadas estão ações preventivas e palestras em comunidades. Entretanto, a delegada também foi direta ao apontar uma das principais necessidades da rede: é preciso ampliar a estrutura para atender a demanda existente.
A audiência deixou, portanto, um recado claro: a Lei Maria da Penha completa duas décadas, mas a proteção às mulheres não pode depender apenas da existência da lei. É preciso investimento, profissionais capacitados, estrutura, prevenção e uma rede capaz de agir rapidamente quando uma mulher pede socorro.
