Rio Grande (RS) — A memória do eleitor parece ser curta para alguns políticos — mas a conta do motorista não é. Poucos meses depois do fim da antiga concessão da Ecosul e da retirada das praças de pedágio do Polo Rodoviário de Pelotas, o assunto volta com força: o governo federal antecipou para dezembro de 2026 o leilão para uma nova concessão das BRs 116 e 392.
O edital está previsto para setembro. O discurso de que os pedágios haviam chegado ao fim, portanto, pode estar prestes a virar lembrança.
E é justamente aí que começa a indignação.
PROMETERAM O FIM. AGORA, QUEREM COBRAR DE NOVO
Durante anos, o pedágio foi tratado como um dos grandes vilões das estradas da Zona Sul. Tarifas consideradas pesadas para trabalhadores, transportadores e famílias foram alvo de críticas, protestos e discursos políticos.
Em março deste ano, o contrato da Ecosul terminou. As antigas praças foram desativadas e o DNIT assumiu aproximadamente 456 quilômetros das rodovias.
Muita gente comemorou.
Mas a comemoração durou pouco.
Agora, o mesmo sistema de concessão volta à mesa. E o cidadão fica diante de uma pergunta que não pode ser ignorada:
Afinal, o pedágio acabou ou apenas deram um intervalo na cobrança até passar o período eleitoral?
Porque, se a promessa era acabar definitivamente com as praças, por que poucos meses depois estamos novamente discutindo concessão privada e cobrança dos usuários?
O ELEITOR NÃO PODE SER TRATADO COMO BOBO
O problema não é discutir se uma rodovia deve ou não ser concedida à iniciativa privada.
Rodovias precisam de manutenção. Precisam de duplicação, segurança, atendimento e investimentos.
O problema é outro: a população precisa saber a verdade antes de votar e antes de pagar.
Não adianta aparecer em período eleitoral para posar de defensor do fim dos pedágios, comemorar o encerramento de uma concessão e vender a ideia de que a população finalmente está livre da cobrança.
Se poucos meses depois a solução apresentada é novamente colocar a estrada nas mãos de uma concessionária e cobrar do motorista, alguém precisa explicar essa contradição.
Ou o discurso anterior estava errado, ou o discurso atual está errado.
O que não dá é o cidadão ficar no meio, pagando a conta.
E A CONTA PODE VOLTAR MAIS ALTA
O antigo Polo Rodoviário de Pelotas chegou a cobrar R$ 19,60 de tarifa em uma das praças.
Agora, com um novo modelo de concessão, ainda será preciso conhecer as tarifas, os pontos de cobrança e todas as condições do contrato.
A proposta envolve aproximadamente 459,6 quilômetros de rodovias, incluindo trechos da BR-116 e da BR-392, com ligação direta com Rio Grande e o Porto.
Ou seja: Rio Grande está no meio dessa discussão.
A BR-392 é fundamental para o transporte de cargas, para a economia regional e para o acesso ao Porto do Rio Grande. Cada aumento no custo do transporte pode chegar ao preço dos produtos, ao frete e ao bolso de quem trabalha.
POLÍTICOS PRECISAM SER COBRADOS
A pergunta agora deveria ser feita publicamente a todos os políticos que defenderam o fim dos pedágios:
Vocês continuam contra o pedágio?
Se continuam, vão se posicionar contra o novo leilão?
Se mudaram de opinião, vão explicar ao eleitor por quê?
E, principalmente:
Quanto o motorista vai pagar? Onde vai pagar? Por quanto tempo? E quais obras serão obrigatórias para justificar essa cobrança?
Não basta trocar o nome da concessão, mudar o modelo de cobrança ou substituir praça por pórtico eletrônico.
Se o motorista continuar pagando para circular pela estrada, o pedágio continua existindo.
Pode mudar o nome. Pode mudar a tecnologia. Pode mudar o governo.
A cobrança continua sendo cobrança.
A ELEIÇÃO PASSA. A CONTA FICA.
A Associação dos Municípios da Zona Sul (Azonasul) já manifestou oposição à realização do leilão ainda em 2026 e cobra respostas para questionamentos apresentados durante as audiências públicas.
A população também deveria cobrar.
Porque transformar uma promessa de campanha em uma nova cobrança depois da eleição é exatamente o tipo de contradição que precisa ser exposta e discutida publicamente.
O cidadão não é caixa eletrônico de governo, concessionária ou político.
Não pode ser lembrado apenas na hora do voto e depois ser lembrado novamente na hora de pagar.
O edital está previsto para setembro e o leilão para dezembro.
Até lá, os discursos vão aparecer.
Que os eleitores também apareçam para cobrar as respostas.
Agora News RG — porque promessa eleitoral também precisa passar pelo pedágio da cobrança popular.
