A movimentação da plataforma P-33 começou nesta terça-feira (11), no cais do Estaleiro Rio Grande, em uma operação que volta a colocar o Polo Naval de Rio Grande no centro das atenções. A estrutura será desmontada pela Ecovix, em mais uma operação de descomissionamento que envolve mão de obra local e abre uma nova frente de trabalho para a indústria naval gaúcha.
A previsão é de que a movimentação se estenda ao longo do dia e que a plataforma entre no dique até esta quarta-feira (12), dependendo das condições meteorológicas e marítimas.
Segundo a assessoria de imprensa da Ecovix, cerca de 50 profissionais participam da operação. O trabalho dá continuidade ao processo realizado anteriormente com a P-32. Assim como a plataforma anterior, a P-33 foi adquirida pela Gerdau e será desmontada pela Ecovix nos próximos meses.
Um dos aspectos que chama a atenção é justamente a utilização de profissionais que já atuam no Estaleiro Rio Grande e que participaram do desmonte da P-32. A estratégia permite aproveitar mão de obra que já possui experiência na atividade e mantém trabalhadores vinculados à cadeia produtiva instalada no município.
A P-33 tem 337 metros de comprimento, 54,5 metros de largura e aproximadamente 45 mil toneladas. A unidade foi utilizada pela Petrobras no Campo de Marlim, na Bacia de Campos, e deixou o Porto do Açu (RJ) no dia 23 de julho, seguindo para o Estaleiro Rio Grande.
Mais do que uma plataforma, uma oportunidade para Rio Grande
A chegada da P-33 representa mais do que uma operação de desmonte. Para Rio Grande, o movimento reacende a discussão sobre o futuro do Polo Naval e sobre a capacidade do município de transformar operações pontuais em uma cadeia permanente de empregos, serviços e negócios.
É justamente nesse ponto que o passado serve de alerta.
Rio Grande já experimentou o crescimento acelerado do Polo Naval, com investimentos bilionários, geração de milhares de empregos e formação de uma ampla rede de empresas fornecedoras de serviços e equipamentos. Também conheceu, posteriormente, o processo de desmobilização que levou ao fechamento e à perda de atividade de estruturas importantes do polo.
Por isso, a chegada de novas operações precisa ser acompanhada de uma preocupação fundamental: os serviços, contratos e oportunidades gerados pelo Polo Naval precisam permanecer no município e fortalecer a cadeia produtiva local.
A experiência anterior mostrou que não basta ter grandes estruturas instaladas em Rio Grande. É necessário garantir que empresas locais tenham participação efetiva, que trabalhadores sejam aproveitados, que fornecedores sejam contratados e que o conhecimento e a capacidade técnica desenvolvidos ao longo dos anos permaneçam na região.
O risco de repetir o passado é transformar grandes operações em movimentações temporárias, sem que elas produzam um efeito duradouro sobre a economia local.
A P-33, portanto, pode ser vista como uma oportunidade — mas também como um teste para a capacidade de Rio Grande recuperar e consolidar sua vocação naval.
Reciclagem sustentável
O desmantelamento da P-33 faz parte do modelo de reciclagem sustentável de plataformas adotado pela Petrobras.
Grande parte da estrutura será reaproveitada como sucata metálica e servirá de matéria-prima para a produção de aço da Gerdau, em Charqueadas (RS). Outros materiais serão encaminhados para processos de descarte seguro e ambientalmente adequado.
A operação amplia a participação do Rio Grande do Sul na cadeia de reciclagem sustentável de grandes estruturas da indústria de petróleo e dá continuidade à parceria entre Petrobras, Gerdau e Ecovix.
O processo também contribui para ampliar a capacidade brasileira de realizar o descomissionamento de plataformas em território nacional, utilizando mão de obra brasileira.
A P-33 é uma das unidades que deverão passar por esse tipo de processo no país. A previsão é de que, até 2030, outras 17 plataformas sejam destinadas à reciclagem, o que pode representar uma oportunidade significativa para a consolidação de uma cadeia nacional de desmantelamento e reaproveitamento de estruturas da indústria de petróleo.
O alerta para o futuro do Polo Naval
O desafio para Rio Grande, entretanto, vai além de receber plataformas para desmonte.
A cidade precisa garantir que a retomada das atividades seja acompanhada pela recuperação da cadeia de serviços que um dia se desenvolveu em torno do Polo Naval. Empresas, trabalhadores, fornecedores, prestadores de serviços especializados e instituições de ensino precisam estar inseridos nesse novo ciclo.
A chegada da P-33 mostra que existe estrutura e conhecimento técnico em Rio Grande para receber grandes operações. A utilização de profissionais que participaram do desmonte da P-32 é uma demonstração disso.
Agora, o desafio é evitar que a história se repita.
O Polo Naval não pode ser apenas o lugar onde grandes estruturas chegam, são desmontadas e depois vão embora. Rio Grande precisa ser também o lugar onde os serviços são contratados, os empregos são gerados, as empresas se desenvolvem e o conhecimento permanece.
Se a nova fase do descomissionamento de plataformas for acompanhada de políticas de fortalecimento da cadeia produtiva local, a P-33 poderá representar muito mais do que 45 mil toneladas de aço chegando ao Estaleiro Rio Grande. Poderá representar uma oportunidade concreta de reconstrução de um setor que já foi fundamental para a economia do município.
A assessoria da Ecovix ainda não informou a data de início efetivo do desmonte nem a duração prevista dos trabalhos.
