A presença da ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, transformou esta quinta-feira (30) em um marco para as comunidades tradicionais de matriz africana em Rio Grande. Em um encontro carregado de simbolismo, cultura e resistência, lideranças do batuque e de religiões afro-brasileiras ocuparam o Salão Nobre Deputado Carlos Santos, reafirmando a força de uma ancestralidade que atravessa gerações.

Recebida sob forte energia de axé, a ministra destacou o papel essencial dos povos de terreiro na construção de uma sociedade mais justa. “O povo do batuque é um povo que promove igualdade racial todos os dias, através do cuidado, da fé e da preservação de sua cultura”, afirmou, emocionando o público presente.

A agenda também incluiu a visita à exposição “Coleção Batuque aprisionada na Alemanha”, em cartaz na Fototeca Ricardo Giovannini até 11 de junho — um convite à reflexão sobre memória, pertencimento e reparação histórica.
Repatriação histórica e criação do Museu do Batuque
Um dos pontos mais impactantes do encontro foi o debate sobre a repatriação de 67 artefatos sagrados do batuque gaúcho, atualmente sob guarda do Museu Etnológico de Berlim. Retirados de forma violenta no século XIX e enviados à Europa em 1880, os objetos carregam não apenas valor histórico, mas espiritual.
A Coordenadoria da Igualdade Racial articula o retorno desses itens, considerados portadores de axé e saberes ancestrais.
Nesse contexto, ganha força o projeto do Museu do Batuque, que poderá consolidar Rio Grande como referência nacional dessa tradição.
Berço do Batuque e potência cultural
Dados preliminares de um mapeamento inédito apontam a existência de cerca de 1.100 terreiros em apenas nove bairros já visitados, reforçando o título da cidade como berço nacional do batuque.
Mais do que números, trata-se de uma rede viva de resistência, acolhimento e preservação cultural.
Homenagens que eternizam a ancestralidade
A atividade também foi marcada por um momento de profunda emoção e reconhecimento. O Governo Federal entregou placas de homenagem a lideranças que representam a história viva dos povos de terreiro.
Entre os mais antigos babas e iyás homenageados:
- Iya Alzenda Maria de Iansã (Ilê Nagô de Iansã e Xangô)
- Iya Otilia de Souza de Ogun (C.E.U Reino de Ogum, Yansã e Rei dos Índios)
- Baba Jorge Nogueira de Xangô (Ilê Oxum Linde e Xangô Yedu)
- Baba Pedro da Silva de Oxum (Templo Africano de Oxum Brilham)
- Baba Olmiro de Deus de Ogun (Casa de Nação Nagô Filhos de Ogum)
- Iya Veronilda Maria Graça de Oxum (Casa de Oxum Taladê)
- Iya Marli Charão de Bara (Ilê Axé Bara Ionan)
- Iya Sirlei Maciel de Oya (Ilê Oya e Ogum)
Reconhecimentos especiais:
- Terreiro de Umbanda mais antigo do Estado: Reino de São Jorge, com Cacique Ivone Varella
- Ilê mais antigo em funcionamento (3ª geração): CEU Reino de Iansã e Juremita, com Iya Jane Vaz de Bara
- Terreiro invadido e demolido em Rio Grande: CEU Caboclo Tartaruga, representado por Cacique Ademir Corrêa
- Organização da maior festa de Iemanjá do sul do Brasil: União Rio-grandina de Umbanda e Cultos Afro Mãe Iemanjá, com Iya Maria Erotildes de Oya
Destaque também para o Conselho Municipal do Povo de Terreiro (10 anos):
- Baba Chendler Siqueira de Xangô (presidente)
- Luiz Otávio de Ogun (vice-presidente)
- Iya Flávia Padilha de Iansã
- Iya Carla Trindade de Oxum
- Baba Gabriel Cavalcante de Oxalá
- Iya Elizete da Rosa de Iemanjá
- Baba Anderson de Oya
- Iya Rubia Cozza de Oxum
Um encontro de resistência e futuro
O vice-prefeito Renatinho Gomes destacou o compromisso do município com a pauta, reforçando o protagonismo local na valorização da cultura afro-brasileira.
Mais do que uma agenda institucional, o encontro representou um avanço concreto na luta por reconhecimento, respeito e preservação cultural.
Entre falas emocionadas, homenagens e reafirmação de direitos, uma certeza ecoou no Salão Nobre:
o batuque segue vivo, pulsante e cada vez mais reconhecido como parte essencial da história e da identidade do Brasil.


