@raquel.avilas

Hoje andei de ônibus. Algo simples e rotineiro para a grande maioria da população. Passei andando de ônibus no verão também fazendo o trajeto Cassino X Rio Grande para ir à academia. Geralmente resolvo pegar ônibus quando estou sozinha. Vou curtindo esse trajeto de uma forma diferente. Essa é a intenção. Passamos por muitos buracos, escutamos conversas e percebemos diversos comportamentos. Ali me sinto sem controle, vulnerável ao que pode acontecer e nada posso fazer ou reclamar. Não posso ir no meu ritmo, não posso não parar em quase todas as paradas para pegar ou deixar passageiros. Ninguém escolhe com quem sentar, vagou, sentou. Só tenho que aceitar e seguir em frente.

Ali também contemplo a paisagem. Fico pensando coisas aleatórias da vida e participando, de certa forma, do cotidiano de cada pessoa que participa daquela mesma viagem comigo. A cada história de vida fico olhando e tentando imaginar como é a rotina daquela pessoa, quem foi visitar, porque pegou aquela linha de ônibus. A partir da minha referência me comparo com a vida delas. A roupa, o comportamento, a comunicação, a música que escuta. E sabe uma coisa que ainda fico muito triste de não ver nesses espaços? Ninguém mais lê livros.
Um espaço coletivo e democrático, mas que muitos ainda não respeitam como deveriam. Esses tempos quando peguei o bus para fazer a caminhada da procissão de Nossa Senhora de Navegantes, um senhor vinha escutando uma música alta no celular e essa música estava em modo repetição e ele não se ligava que era o celular dele e não desligava. Já estava todo mundo comentando sobre isso, alguns até gritavam “troca de música” e nada. Alguns, mesmo vendo idosos de pé, não colocam os filhos pequenos em seus colos. Outros poucos, um tanto educados, como um senhor de hoje, cedeu lugares que vagaram na frente dele para várias pessoas, pelo menos umas quatro que contei e acompanhei. E ali vou observando, num breve momento, no mesmo local, várias pessoas e seus comportamentos, alguns me surpreendendo outros nem tanto, infelizmente. Ali sou uma mera observadora, observadora do indivíduo, do ser humano. Uma das poucas situações diárias que tenho parado para contemplar, sem me ocupar com celular, música no ouvido ou até mesmo lendo um livro. Andar de ônibus tem sido uma terapia pra mim.
Mais além de tudo isso que trouxe aqui hoje o mais interessante é que postei no meu perfil do instagram uma foto minha dentro do ônibus com um texto sobre sair da zona de conforto. Uma conhecida comentou: “Nossa, às vezes eu acho tão importante a gente fazer coisas simples e rotineiras… a internet normatizou o “inatingível” que parece até vergonhoso fazer o cotidiano, andar de ônibus ou qualquer coisa que fuja do instagramável. Mas eu acho muito importante a gente voltar algumas casas muitas vezes. É importante andar com quem a gente quer ser mas quem a gente ainda é!” E é a mais pura verdade. Vamos deixando de fazer e ser o que somos. Ou fazemos e não postamos, como se isso fosse nos diminuir. Como se estivéssemos nos escondendo. Parece que só somos reconhecidos como pessoas importantes ou de autoridade quando estamos consumindo e postando o de melhor ou o que toda a manada está fazendo, perdendo a nossa essência.
Bancando e forçando ser quem não somos. Quando eu escolho pertencer a algum lugar eu consigo experenciar o belo, as diferenças e vivo porque me sinto pertencente aquele local. É real, eu sinto. Quando eu sou forçada ou escolho um lugar que não me pertence eu tenho e tento me encaixar nas situações e não dá match. Me sinto uma estranha no ninho, não tem jeito. Não é verdadeiro e eu me sinto presa. Não me faz bem. Nesse mundo de consumo, do ter e de comparações, sucesso medido pelo carro que temos, bairro onde moramos, pessoas que andamos, a gente vive numa sociedade do cansaço, correndo atrás do resultado que nunca é suficiente, nunca chega. Quando ele pode estar ali, logo ali, pertinho de ti. Vou te dar uma dica: deixa o carro e desta vez vá de ônibus. Pode ser que nesse caminho você encontre a resposta, a si mesmo, a sua essência, o que faz você vibrar por dentro. Hoje eu andei de ônibus. Hoje eu me contemplei, eu fui quem eu quis ser. Deixei fluir. Não briguei, não reclamei, não controlei, deixei o ônibus me levar. Pra esse lugar que só consigo ir quando estou no ônibus.

