Antes de ser porto, antes de ser polo industrial, antes de se tornar referência histórica no Rio Grande do Sul, Rio Grande foi coragem. Foi decisão estratégica. Foi resistência. Mas, acima de tudo, foi construída por gente.
Gente que enfrentou ventos fortes, disputas territoriais, desafios econômicos e transformações sociais. Gente que acreditou na terra onde fincou raízes. Ao longo de quase três séculos, os rio-grandinos moldaram a cidade mais antiga do Estado com trabalho, perseverança, identidade e profundo amor pelo lugar onde vivem.
Rio Grande não é apenas um marco no mapa, é memória viva, é tradição que atravessa gerações. É desenvolvimento que nasce do esforço coletivo. Cada rua do Centro Histórico, cada embarcação que cruza o estuário, cada bairro que cresceu ao longo do tempo, carrega a marca de quem ajudou a construir essa trajetória.
Para celebrar os 289 anos da cidade, o Agora News apresenta uma Série Especial em quatro capítulos, publicados nos dias 19, 20, 22 e 23 de fevereiro, revisitando passado, presente e futuro do município que deu origem ao próprio nome do Estado.
📖 CAPÍTULO 1 – Rio Grande: onde tudo começou. (19/02)
A fundação em 1737, o contexto histórico, os conflitos coloniais e o papel estratégico da cidade como o primeiro núcleo urbano do Rio Grande do Sul.
🌊 CAPÍTULO 2 – Território, distritos e turismo. (20/02)
A força do Balneário Cassino, das localidades do interior, das áreas ambientais e dos principais pontos turísticos que movimentam a economia e fortalecem a identidade cultural.
⚓ CAPÍTULO 3 – Desenvolvimento, trabalho e economia. (22/02)
O Porto, a indústria, o comércio, as universidades, a inovação e as engrenagens que fazem a cidade crescer e gerar oportunidades.
🏛️ CAPÍTULO 4 – Sociedade, política e transformação. (23/02)
Os grandes acontecimentos históricos, a evolução urbana, os desafios contemporâneos e as perspectivas para o futuro de Rio Grande.
Quase três séculos depois da fundação oficial, a cidade segue se reinventando. Mas mantém intacta a essência de um povo que aprendeu a prosperar entre o mar e a lagoa, entre o passado e o futuro.
Porque Rio Grande não é apenas a mais antiga do Estado.
É a primeira em história.
E segue sendo gigante em identidade.
CAPÍTULO 1
Rio Grande: onde tudo começou.
Rio Grande não é apenas um município do sul do Estado, é o ponto de partida da história do Rio Grande do Sul. Fundada em 19 de fevereiro de 1737, a cidade carrega o título de mais antiga do RS e ocupa um lugar central na formação política, econômica e territorial do extremo sul do Brasil.
Neste primeiro capítulo da série especial, voltamos quase três séculos no tempo para entender como nasceu a cidade que deu origem ao próprio nome do Estado.
⚔️ 1737: O nascimento de um território estratégico.
A fundação de Rio Grande está diretamente ligada às disputas entre Portugal e Espanha pelo controle da região sul da América. No século XVIII, a área era considerada estratégica, tanto do ponto de vista militar quanto comercial. O estuário da Lagoa dos Patos representava uma porta de entrada natural para o interior do território e garantia o domínio sobre rotas marítimas e fluviais.
Em 19 de fevereiro de 1737, o Brigadeiro português José da Silva Paes, fundou o Presídio Jesus-Maria-José, núcleo que daria origem ao município de Rio Grande. A instalação do presídio tinha objetivo claro: assegurar a posse portuguesa da região frente às investidas espanholas.
Mais do que uma construção militar, o presídio simbolizava o início da ocupação efetiva portuguesa, no território que, décadas depois, se consolidaria como o Rio Grande do Sul.
Antes de 1737? A polêmica sobre Cristóvão Pereira de Abreu.
Embora a fundação oficial de Rio Grande esteja registrada em 19 de fevereiro de 1737, com a instalação do Presídio Jesus-Maria-José, por José da Silva Paes, há debates históricos sobre presenças anteriores na região.
Um dos nomes frequentemente mencionados é o de Cristóvão Pereira de Abreu, tropeiro, explorador e figura importante na abertura de rotas terrestres no sul do Brasil, no início do século XVIII.
Cristóvão Pereira de Abreu teve papel relevante na consolidação dos caminhos que ligavam o Rio Grande do Sul a São Paulo, especialmente na estruturação das rotas de tropas e no desenvolvimento econômico da Região Sul. Registros históricos indicam que ele circulou pelo território antes da fundação oficial do presídio em 1737, participando de expedições e articulações estratégicas ligadas à expansão portuguesa.
🧭 Presença não é fundação.
A principal questão do debate está na diferença entre “estar” e “fundar”.
Há indícios de que Cristóvão Pereira de Abreu tenha passado ou estabelecido atividades na região antes de 1737. No entanto, não há registro formal de criação de núcleo administrativo, militar ou urbano estruturado por ele no local onde hoje está Rio Grande.
A fundação reconhecida oficialmente envolve ato institucional, construção de estrutura militar permanente e formalização de ocupação em nome da Coroa Portuguesa — o que ocorreu com Silva Paes.
⚖️ História construída em camadas.
A controvérsia não diminui a importância de nenhum dos personagens, pelo contrário: revela que a ocupação do território foi processo gradual, feito de expedições, rotas comerciais, interesses estratégicos e decisões políticas.
Cristóvão Pereira de Abreu representa a fase das articulações e caminhos que antecederam a consolidação territorial. Já José da Silva Paes simboliza o marco institucional da fundação.
Ambos fazem parte da construção histórica do extremo sul.
🏛️ Memória, identidade e debate histórico.
Discussões como essa demonstram que a história não é estática, ela é permanentemente revisitada à luz de documentos, interpretações e novos olhares acadêmicos.
O reconhecimento oficial de 1737 como data de fundação permanece respaldado por registros administrativos da Coroa Portuguesa. Contudo, a presença anterior de exploradores e tropeiros reforça que o território já era estratégico antes mesmo da formalização do presídio.
Rio Grande nasceu oficialmente em 1737 — mas sua história começou a ser traçada ainda antes disso, nos passos de quem abriu caminhos no sul do continente.
🛡️ Conflitos e consolidação no período colonial.
A posição estratégica da cidade fez com que Rio Grande estivesse no centro de conflitos durante o período colonial. Em 1763, tropas espanholas chegaram a ocupar o povoado, obrigando a administração portuguesa a se deslocar para Viamão — que mais tarde se tornaria Porto Alegre.
A retomada definitiva do território por Portugal ocorreu em 1776, reafirmando a importância da cidade no contexto geopolítico da época. A partir daí, Rio Grande consolidou-se como ponto militar fundamental e polo de abastecimento para as demais regiões da então capitania.
A presença constante de disputas moldou o caráter da cidade: resiliente, estratégica e profundamente conectada aos rumos do Estado nascente.
🌊 A vocação portuária desde as origens.
Se a fundação teve caráter militar, rapidamente a cidade desenvolveu outra vocação: a portuária. A localização privilegiada às margens da Lagoa dos Patos permitiu que Rio Grande se tornasse ponto de entrada e saída de mercadorias, pessoas e ideias.
Ainda no período colonial, o porto natural impulsionou o comércio de couro, charque e produtos agrícolas. Essa atividade econômica foi determinante para o crescimento populacional e para a formação de uma sociedade marcada pela diversidade cultural.
A base econômica construída no século XVIII seria a semente do que, séculos depois, transformaria o município em sede do Porto do Rio Grande, um dos mais importantes complexos portuários do Brasil.
🏛️ A cidade mais antiga do Rio Grande do Sul.

O título de cidade mais antiga do Estado não é apenas simbólico. Rio Grande foi o primeiro núcleo urbano oficialmente instalado no território sul-rio-grandense. Antes de Porto Alegre, antes das grandes estâncias da campanha, antes da consolidação das fronteiras estaduais, havia Rio Grande.
Esse pioneirismo impactou diretamente a organização política do Estado. Durante determinado período, a cidade foi sede administrativa da capitania, desempenhando papel central na estrutura governamental da região.
Seu Centro Histórico, ainda hoje preservado, guarda traços arquitetônicos que remetem a diferentes fases de sua evolução — do período colonial ao ciclo industrial.
⛪ Formação social e cultural.
Com o passar das décadas, o antigo presídio transformou-se em vila, depois em cidade estruturada. A população cresceu com a chegada de militares, comerciantes, pescadores e imigrantes europeus.
A convivência entre diferentes origens contribuiu para uma identidade plural, marcada pela influência portuguesa, espanhola, africana e, posteriormente, alemã e italiana.
A religiosidade também teve papel importante na organização social. Igrejas e instituições de caridade surgiram como centros de referência comunitária, ajudando a consolidar o tecido urbano.
🚢 Entre guerras, comércio e expansão.

Ao longo do século XIX, Rio Grande participou ativamente dos principais movimentos políticos do sul do Brasil, incluindo conflitos que marcaram a história gaúcha. Sua localização estratégica fazia da cidade ponto logístico essencial em tempos de instabilidade.
Paralelamente, o comércio marítimo crescia. A exportação de produtos regionais consolidou o município como elo entre o interior produtivo e o mercado externo. Esse dinamismo econômico impulsionou melhorias urbanas, ampliação de infraestrutura e fortalecimento institucional.
Rio Grande deixava de ser apenas um posto militar e se transformava em centro urbano de relevância regional.
🏙️ O legado do século XVIII no presente.
Mais de 280 anos depois, os reflexos da fundação ainda estão presentes no cotidiano da cidade. O traçado urbano, os prédios históricos e a própria configuração territorial remetem à origem estratégica do município.
O monumento ao fundador, José da Silva Paes, permanece como símbolo do marco inicial. Já o Centro Histórico preserva construções que testemunharam diferentes ciclos econômicos e políticos.
A memória da fundação é celebrada todos os anos em 19 de fevereiro, data que relembra não apenas o nascimento da cidade, mas o início da formação do Rio Grande do Sul.
🌅 Mais do que uma fundação, um ponto de partida
Rio Grande é onde tudo começou. A cidade que nasceu como presídio militar tornou-se referência portuária, econômica e cultural. Seu papel na consolidação do território sul-rio-grandense a coloca como protagonista na história estadual.
Entender a fundação de 1737 é compreender o próprio surgimento do Rio Grande do Sul. É reconhecer que, antes das fronteiras definidas, das grandes cidades e dos ciclos industriais, houve um ponto estratégico às margens da Lagoa dos Patos que deu origem a tudo.
No próximo capítulo, vamos percorrer o território que se expandiu a partir desse núcleo inicial — seus distritos, paisagens, vocação turística e as riquezas naturais que transformaram Rio Grande em destino e motor econômico.
Por que a história começou aqui e continua sendo escrita todos os dias


