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FATOS E COISAS Com Ronaldo Morgado Segundo

O Retovado

General João Borges Fortes

Texto de 1941 publicado pela Bibliotheca Rio Grandense com o português usado no século XVIII e na    década de 1940.

Num trabalho gradativo e contínuo se vai reconstituindo a história dos primeiros tempos do Rio Grande.

E’ a vida das Missões Jesuíticas desde a época do P. Roque Gonzales até ao Trabalho de 1750; são as   incursões dos Bandeirantes agressivos e as penetrações pacíficas de Brito Peixoto, João de Magalhães e dos Lagunistas; as passagens de invernistas e tropeiros e finalmente a ocupação definitiva com a chegada de  Silva Paes às praias onde fundou o presídio de Jesús Maria José.

  • Largo período evolutivo, obscuro até bem pouco tempo e hoje plenamente iluminado após aturadas pesquisas de esforçados estudiosos de documentos e arquivos.

Quantos episódios se desenrolaram nessa fase da vida rio-grandense explicando cousas de hoje, como por exemplo, nomes perpetuados na geografia e na legenda: Ocupar-nos-emos neste momento de um dêsses episódios. Já tivemos ensejo de estudar em desvalioso trabalho literário, que mereceu, entretanto a honra de ser inserto nas páginas da Revista do Instituto Histórico do Rio Grande do Sul, um extenso estudo    sôbre a personalidade de Cristóvão Pereira de Abreu.

Aurélio Porto, em magistral trabalho sôbre o mesmo tema, em TERRA FARROUPILHA, completou as lacunas do que  escrevera acêrca da importante personalidade de Cristóvão Pereira, tão profundamente vinculado na história e na geografia do Rio Grande.

O dicionário geográfico de Octavio Faria menciona à página 294: “Retovado, lugar no município do Norte: com capela do Menino Deus.”Qual a procedência dessa denominação?

Quando Francisco de Souza Faria abriu o caminho do Araranguápara a vila de Nossa Señhora da Luz dos Pinhais de Coritiba, o comércio de tropas de animais estava em pleno florescimento. Cristóvão Pereira, o máis diligente, adiantado e prestigioso tropeiro da época, obteve a prioridade de conduzir a sua   tropa  atravéz da estrada recém-aberta. Ápós êle deveriam seguir os demais mercadores de animais,

sussedeo o mesmo e athé hoje não posso formar juizo com que acerte no motivo que houve para hisso porque ainda que muitos ficarão pellos mattos por canza de pouco zello dos Arreadores; contudo sahirão Eguas e cavalllos magrissimos e outros muy gordos e soberbos, ficarão dando a muitos hu tremor que de repente eahião, e o que mais confunde he o cahirem crias de dois e tres mezes, seguindo os mais     animais e as Mãis ficarem e não posso, outra causa mais que virem estes animais suados e chegando aos rios se enxarcão nas Agoas, e talvez que a histo se ajunte o comerem algua folha ruim do matto que  os impossibilite e mate: ou tambem que como vem tres dias por matos altos pasmão e esmoressem     porque bem pode ser que se dê nos animais a mesma natureza que nos homens.

Não posso dar a V. Exa. ainda a verdadeira notticia das cabeças que se achão já n’estes campos porque athé aqui não houve lugar de se examinar-porem com pouca deferença haverá novesentos cavallos perto de duzentas Eguas e de seissentas mullas e com duzentos e oitenta que dizem se achão do defunto farão o numero de duas mil cabeças cincoenta mais ou menos as coais julgo daqui   por diante escapas     por-que conciderando eu que com a chegada   dos Matadores as Missões e noticia das tropas será facil virem algumas de Indios e ser me dificultoso defender e mais os animais determinei passar as cavalhadas para huns,bons campos e pastos que se achão para diante dia e meyo de viagem donde elles se não   animarão a hir, e quando o ententem, com muita facillidade  bastarão huma duzia de homens para lhe  cortarem o passo em muitos que tem estreitos e sendo ese dia e meyo de caminho bem trabalhoso,cheio de grotas e dois reachos enfadonhos e com muito pantano e pedra no me sentir peor que o da Serra  por hir sempre arumado della se, não perdeo animal nenhum e se achão já em carnes e altivos, e sem o cuidado que me elles podião dar vindo os Indios.

A picada dos primeiros abridores do caminho vay sempre por sima dela serra meterce em hum rincão ou enceada que faz outra que desta shy para fora e asy por me livrar das asperezas que naturalmente se hão de topar como o dar esta volta donde hoje  se acha a cavalhada despachey huma partida com tres Pillotos e outro homem experiente que entrassem a buscar o campo e cortassem rumo direito a        desmontar a ponta da cerra, buscando vareda e feita esta deligeneia voltassem a buscar gente para hirem compor o caminho donde for necessario athé paragem comoda donde tornar a parar e continuar na    mesma deligencia.

Neste segundo me dizem atalhei perto de dois mezes de caminho e tenho boas esperanças porque os   que foram na primeira partida vão fazendo fogos que he hum dos signaes que lhes dey e no entanto    como para diante não ha vaccas nem por aqui perto, fico para entrar campo dentro adonde as ha com coarenta pessoas a colher as que me possão bastar para a viagem e feita esta passo para diante a      continuar na mesma, e do que resultar darey parte a V. Exa. pelo proprio que pertendo mandar para que  tendo V. Exa. ocazião de a dar a Corte paressendo lhe o possa fazer.

Entre os Indios que apanhey nestes campos foi hu raparaiga de idade de  seis para sete anos chamada  Paula, esta  quisera pedir a V. Exa. me mandace dar para mandar para Portugal e quando tenha lugar, se digne V. Exa. de fazer-me a honra de mandala entregar na Villa de Santos ao Ajudante Fernando Pereira e   Castro. D. G. a V. Exa. como todos os seus creados desejamos. Campos dos Pinhaes o primeiro de  Fevereiro de 1733”.

Esta carta narra o epilogo da vida de Custódio da Silva Pereira,tropeiro de animais entre a Colônia do Sacramento e a cidade de São Paulo; nem todo o texto da missiva se prende ao assunto de que estamos tratando e se a reproduzimos integralmente foi por ver nela, não só aspectos da vida contemporânea, como porque fotografa o carater e fitio do forte Cristóvão Pereira de Abreu.

Custódio da Silva ocupou uma área de terras no hoje município de S. José do Norte, a cêrca de duas leguas em linha reta da vila, junto a um capão como se vê da carta de Couto e Reis, levantada no ano de 1777 e guardada no Estado Maior do Exército.

A 9 de Agosto de 1739 o Mestre de Campo André Ribeiro Coutinho concedeu a José Ribeiro Gomes “os campos que foram de Custódio da Silva, o Retovado, em que esteve a engordar as suas cavalgaduras cujos tem elle supplicante povoado com gado vacum e e cavallares e. que são da parte do Norte, partem de uma banda com Manoel Gongalves da Costa e da outra com o capitão João de Tavora”.

Por sua vez Manoel Gongalves da Costa reçebeu a doação do capão chamado do Carvalho, vindeiro  por sua parte Sul com o capão do defunto Retovado. Parece-me rigorosamente explicada a origem da    localidade do Retovado. Resta sómente buscar a procedência de sua alcunha, perpetuada na corografía riograndense: não será preciso um grande esfôrço para obter êsse último esclarecimento sôbre a  passagem de Custódio da Silva no Rio Grande.

De seu requerimento ao Conselho Ultramarino se vê que Custdio fôra tropeiro de animais nos sertões do Norte, na Bahía e em Minas. Os homens que fazem a faina de gados nos cerrados usam, ainda nos tempos atuais, uma vestimenta completa de couro.

Não será absurdo acreditarmos que com uma tal vestimenta aparecesse Custódio quando nos caminhos do Rio Grande se entregava aos seus labores de condutor de tropas: daí, provavelmente, lhe darem a      alcunha de Retovado.

Esta palavra, que vem mencionada em todos os vocabulários riograndenses, traduz o hábito de       revestir de couro alguns objetos de uso vulgar na vida pastoril, tais como os cabos de instrumentos     como a faca, o relho, as boleadeiras e outros. São retovados tambem os burrinhos e terneiros que      perderam as mães e devem ser amamentados por eguas e vacas que perderam as proprias crias.

Vestido de couro, Custódio ficou conhecido como o Retovado, e no capão onde apascentou os seus gados ficou a lembrança eterna de sua efêmera passagem pelo Rio Grande, na era inicial da infiltração lusitana.

 

 

 

 

 

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