--° / --°
Min Max
Artigos Colunistas GERAL MANCHETE PAÍS SAÚDE

Esporotricose em Rio Grande/RS, o que precisamos saber? 

Por Vanice Rodrigues Poester e Melissa Orzechowski Xavier

A esporotricose é uma micose muito comum em nossa região, que se manifesta por feridas na pele e que se disseminou por todo Brasil nos últimos anos. A doença ocorre após a infecção pelo fungo Sporothrix a partir de um trauma pelo ambiente (sapronótica) ou por um animal (zoonótica). A via sapronótica ocorre ocasionalmente em pessoas que lidam/manipulam material vegetal com frequência, podendo ser associada principalmente a algumas profissões como jardineiros e floristas. Por outro lado, a via zoonótica da doença, causa surtos, hiperendemias e microepidemias, e é responsável pelo aumento significativo do número de casos descritos nas últimas décadas em nosso país.

O Brasil é o berço de surgimento desta doença na sua forma zoonótica, a qual, historicamente, começou a preocupar no final da década de 90, quando os relatos de esporotricose transmitida principalmente por gatos domésticos, tornaram-se cada vez mais frequentes. Surtos, que foram inicialmente descritos no estado do Rio de Janeiro, seguido pelo estado do Rio Grande do Sul, especificamente no município de Rio Grande, estão atualmente amplamente dispersos pelo território nacional (nordeste, sudeste, sul, centro-oeste), atingindo inclusive países vizinhos (Argentina, Uruguai e Paraguai).

Nas últimas décadas a esporotricose zoonótica no Brasil se tornou um grave problema de saúde pública, e passou a integrar a lista nacional de doenças de notificação compulsória em janeiro deste ano!

Este panorama está associado a dois principais fatores: 1) a principal espécie do fungo que causa a doença na sua forma zoonótica, S. brasiliensis, que é altamente virulenta; 2) e ao gato doméstico, que é altamente suscetível à esta espécie fúngica. Ao contrário de outros hospedeiros, como humanos que frequentemente apresentam formas cutâneas da esporotricose, os gatos desenvolvem formas mais graves da doença, com disseminação do fungo via corrente sanguínea, geralmente progredindo para acometimento pulmonar e culminando com óbito se não tratada. Cabe ressaltar que a esporotricose em gatos e humanos tem cura, o diagnóstico precoce é um aliado importante para eficácia do tratamento!

Além desses fatores, condicionantes comportamentais dos gatos, tais como alta frequência de brigas devido a disputa por território e/ou fêmeas e contato direto com humanos e outros animais, favorecem a disseminação do fungo entre gatos e para outros animais, incluindo humanos. Assim, os gatos são o pilar central na epidemiologia da esporotricose, e devido a isso podem ser erroneamente considerados como vilões da casuística nacional, porém, eles são de fato, as principais vítimas da doença! Cabe a cada tutor manter seu animal domiciliado para que o mesmo não venha a ser infectado pelo fungo!

Em nosso município do Rio Grande/RS, o aumento de casos da esporotricose começou a ser monitorado a partir do ano de 2010, junto a oferta de prestação de serviço de diagnóstico laboratorial pelo Grupo de Micologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande (FAMED-FURG). Nos primeiros 5 anos foram registrados 129 casos em felinos do município e cerca de 100 casos em humanos de Rio Grande e região. Em 2017, nosso Grupo, com apoio da SMS de Rio Grande, e juntamente ao Serviço de Infectologia (SAE) do HU-FURG/EBSERH criou a Rede de Assistência a Esporotricose Humana. Nessa época já evidenciávamos um agravamento da situação epidemiológica da doença em nosso município, com a descrição de 279 casos em gatos e 48 em humanos somente em dois anos em Rio Grande/RS.

A última atualização da situação na cidade demonstra um cenário ainda pior, com 1371 casos de esporotricose em gatos e 134 em humanos diagnosticados entre os anos de 2019 e 2024, pelo Grupo de Micologia Médica da FAMED-FURG, representando uma média anual de 281 casos/ano. Estudos recentes do Grupo evidenciam também, a partir de mapas de calor (Figura 1), bairros de maior prevalência da doença.

Frente a esse preocupante cenário, além da prestação de serviço diagnóstico, o Grupo de Micologia Médica da FAMED-FURG tem se dedicado também, desde 2011, à atividades de educação junto a profissionais de saúde humana e animal, bem como junto a comunidade rio-grandina e escolares. Essas atividades de educação em saúde têm como foco produzir material informativo e auxiliar na construção do conhecimento sobre a esporotricose e seu controle, utilizando uma linguagem simples e direta que aborda as formas de transmissão, os sintomas e a epidemiologia em nossa região, assim como medidas preventivas para evitar que os números da esporotricose felina e humana sigam aumentando. Na imagem a seguir, é possível conferir exemplos dos materiais educacionais produzidos pelo grupo da FURG.

Ressaltamos que a esporotricose é um problema de saúde pública instaurado em nosso município! Para enfretamento desta situação é necessário o conhecimento da população sobre a doença e os fatores de transmissão do fungo entre gatos e de gatos para humanos e ações interligadas entre os distintos setores do poder público. Além disso, importante lembrar que a esporotricose em humanos e em animais tem cura! Faça a sua parte! E, caso você identifique uma lesão suspeita da doença em você ou em seu animal, procure atendimento médico!

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *